A política democrática é marcada pelo direito à divergência, ao debate e à fiscalização. No entanto, quando instrumentos legítimos do processo legislativo passam a impactar diretamente a execução de políticas públicas, surge um questionamento inevitável: quem deve assumir a responsabilidade pelas consequências dos atrasos?
Recentemente, Rondônia acompanhou a demora na liberação dos recursos do Fundo para Infraestrutura de Transportes e Habitação (Fitha), destinados à recuperação de estradas vicinais nos municípios. O projeto permaneceu cerca de 30 dias na Assembleia Legislativa devido a pedidos de vistas e outros mecanismos regimentais que retardaram sua votação. O episódio gerou reclamações de gestores municipais e da população que aguardava os investimentos.
O fato chamou atenção porque, após o atraso na tramitação, integrantes do mesmo grupo político que contribuíram para a paralisação passaram a criticar a demora na chegada dos recursos. Para observadores da cena política, trata-se de uma contradição que levanta dúvidas sobre a coerência entre discurso e prática.
Agora, situação semelhante volta ao debate público. O deputado estadual Rodrigo Camargo solicitou vistas de um projeto que prevê a destinação de recursos para a saúde pública de Rondônia. A medida está dentro das prerrogativas parlamentares e faz parte do processo legislativo. Entretanto, especialistas ressaltam que toda prerrogativa também carrega responsabilidade, especialmente quando envolve matérias que impactam diretamente hospitais, unidades de saúde e o atendimento à população.
O episódio reacende uma discussão importante: qual deve ser a prioridade quando projetos de interesse público chegam ao Legislativo? A análise criteriosa das propostas ou a construção de narrativas políticas visando futuras disputas eleitorais?
Para setores da sociedade, quem pretende administrar o Estado precisa demonstrar capacidade de solucionar problemas e acelerar investimentos, e não contribuir para entraves que posteriormente se transformam em argumentos políticos. A crítica e a fiscalização continuam sendo pilares fundamentais da democracia, mas há uma diferença clara entre fiscalizar e obstruir.
Os efeitos do atraso na liberação dos recursos do Fitha foram sentidos pelos municípios que aguardavam melhorias em suas estradas. Agora, cresce a preocupação de que a saúde pública enfrente situação semelhante caso a tramitação dos novos recursos seja prolongada.
Diante desse cenário, aumenta a cobrança por transparência e responsabilidade. A população tem o direito de saber quem trabalha para garantir a rápida aprovação de projetos considerados estratégicos e quem, por decisões políticas, contribui para retardar investimentos essenciais.
Na política, a coerência entre discurso e prática é um dos principais critérios de avaliação da sociedade. E, quando há divergências entre palavras e ações, os fatos costumam falar mais alto.
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