Filipe Luís chegou ao futebol europeu para iniciar seu primeiro trabalho como treinador no continente depois de construir uma passagem vitoriosa pelo Flamengo. E, nos primeiros meses à frente do Monaco, o brasileiro já encontra resultados que dão força às suas ideias. Após cinco rodadas da Ligue 1, a equipe lidera a competição com 13 pontos. Na Europa, também avançou na Conference League ao eliminar o Gornik Zabrze e garantir presença na fase de grupos.
Mais do que os resultados, porém, algumas declarações do treinador ao jornal francês “L'Equipe” ajudam a entender os princípios que ele tenta levar para o dia a dia do clube. Filipe não fala apenas sobre organização tática ou escolhas para cada partida. Sua preocupação passa também pela postura dos jogadores, pela intensidade dos treinamentos e, principalmente, pela necessidade de não permitir que bons momentos produzam acomodação.
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Ao ser questionado sobre a maneira como pressiona jogadores como Paris Brunner, artilheiro do time, o jovem técnico deixou claro que a cobrança faz parte do processo. Para Filipe, o rendimento atual não pode ser tratado como garantia de espaço no time. A lógica vale para Brunner e também para outros nomes do elenco, como Stanis Idumbo e Alexander Golovin.
— É assim que eu vejo. O que ele está fazendo é fantástico, ele ou outros, jogadores como Stanis (Idumbo) ou Golo (Alexander Golovin). Se eles relaxarem um pouco, a mentalidade vencedora desaparece. É preciso lutar constantemente pelo seu lugar. Veja um jogador de classe mundial como Ronaldinho. Ele relaxou um pouco e, em dois anos (depois de sair do Milan e voltar para o Brasil, para o Flamengo), já estava jogando no México. O futebol é rápido. Ele não espera por ninguém.
A referência a Ronaldinho resume uma preocupação que Filipe parece considerar central: talento e reputação não funcionam como proteção contra a queda de rendimento. Na visão do ex-Flamengo, o futebol muda rapidamente e exige que o jogador se mantenha em movimento, tanto tecnicamente quanto mentalmente.
Por que o treino é tão importante para Filipe Luís?
Essa cobrança não nasceu no Monaco. Durante sua passagem pelo Flamengo, Filipe Luís também ganhou notoriedade por exigir intensidade dos jogadores e não separar qualidade técnica de comportamento no trabalho diário. Um dos episódios lembrados na entrevista foi a crítica feita a Pedro no ano passado, quando o atacante foi cobrado publicamente pelo esforço apresentado.
Ao responder sobre o episódio, o treinador não tratou a questão como uma particularidade de Pedro. Para ele, existe um princípio que vale para todo o elenco e que começa justamente longe dos jogos. O treinamento ocupa, em sua visão, um espaço que não pode ser negociado.
— O treino é o nosso santuário particular. E lá, não podemos fazer concessões nem relaxar. Não é lugar para brincadeiras, embora, claro, possamos nos divertir. É onde trabalhamos, onde evoluímos como equipe.
É nesse espaço (treino) que o comandante espera que os jogadores mantenham concentração, intensidade e disposição para disputar novamente seus lugares. E esse pensamento também aparece quando Filipe fala sobre sua relação com a tática.
Apesar de ser conhecido pelo interesse por xadrez e por estudar diferentes possibilidades do jogo, ele não demonstra interesse em transformar cada partida em uma mudança radical de estratégia. Para o brasileiro, adaptar-se não significa necessariamente alterar toda a estrutura da equipe a cada adversário.
Tática sem tirar o protagonismo dos jogadores
A resposta de Filipe Luís sobre o xadrez é particularmente reveladora porque mostra como ele enxerga a fronteira entre aquilo que cabe ao treinador e o que precisa ser resolvido pelos jogadores dentro de campo. O futebol, segundo ele, possui estatísticas, posicionamento e uma série de detalhes, mas não pode ser reduzido a esses elementos.
— No futebol, também existem estatísticas, posicionamento em campo e muitos detalhes, mas depende muito mais da personalidade dos jogadores. É diferente. Não gosto de mudar as coisas de uma partida para a outra porque isso pode confundir os jogadores. Eu apenas destaco alguns aspectos específicos. Depois disso, em campo, tudo depende deles.
A ideia combina com a postura que o treinador descreve nas outras respostas. Filipe quer jogadores preparados, competitivos e capazes de responder ao que acontece durante uma partida, mas não pretende resolver tudo por eles a partir da área técnica.
Sua função passa por preparar o cenário, corrigir detalhes e apontar aquilo que pode fazer diferença, deixando uma parte importante da tomada de decisão para quem está dentro do campo.
No início de sua experiência no Monaco, os resultados indicam que esse modelo vem sendo acompanhado por uma resposta positiva do elenco. A liderança da Ligue 1 e a classificação na Conference League ainda representam apenas o começo de um trabalho que terá desafios maiores pela frente. Mas as declarações à imprensa francesa deixam uma característica evidente: Filipe não parece disposto a permitir que um bom início diminua a exigência.
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